NUTRIÇÃO
DE MÃES DE CRIANÇAS ATENDIDAS NO AMBULATÓRIO DE OBESIDADE,
DA DISCPLINA NUTRIÇÃO E METABOLISMO DO DEPARTAMENTO DE
PEDIATRIA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO
ESCOLA
PAULISTA DE MEDICINA
Autor: Paulo Cavalcante Muzy
Orientador: Prof. Dr. Fabio Ancona Lopez Co-Orientadora: Profa. Dra. Fernanda Luisa Ceragioli Oliveira INTRODUÇÃO
Nos últimos anos a obesidade tornou-se um problema
de saúde pública15,17. Além do estigma psicossocial
acarretado pela obesidade2,13,16,18, as complicações clínicas
e metabólicas geram um grande número de atendimentos nos serviços de
saúde8. Podemos citar as repercussões da obesidade como
hipertensão arterial, dislipidemias, diabetes tipo II, doenças
cardiovasculares, apnéia do sono, neoplasia de mama, cólon e reto. É
importante ressaltar a complexidade do assunto, pois a obesidade tem uma
etiologia mista7, na qual contribuem vários fatores que não
têm ações independentes, portanto sofrem influência entre si. A obesidade está ligada a uma predisposição genética9 e fatores ambientais, como o hábito alimentar da família4,10,12,19,20,21,23. O estilo de vida das pessoas influi fortemente quando o assunto em pauta é a obesidade. Assim, o sedentarismo aliado uma dieta hipercalórica, a ausência de regularidade no horário das refeições são fatores que de forma isolada ou combinada contribuem para o desenvolvimento da obesidade14. O vínculo emocional mãe-filho afeta a nutrição da criança, pelo modo com que a mãe, demonstrando afeto ou preocupação, oferece alimentos como “prêmio” ou compensação20. Dentre esses, o estilo de vida deve um componente importante na gênese da obesidade, pois este define os hábitos e costumes das crianças e adolescentes e os consolida nos pais12,19,20,21. Esses hábitos e costumes podem ser elencados: não possuir horários fixos para comer; quantidade de comida preparada por refeição; qualidade da comida em relação à porcentagem de carboidratos, gorduras e proteínas; número de refeições consumidas diariamente; quantidade de alimentos consumidos em cada refeição relacionada aos horários das mesmas; hábito de comer entre as refeições e a qualidade e quantidade dos alimentos ingeridos nestes intervalos7. A mãe
desempenha papel fundamental no aprendizado nutricional do filho. Esse
aprendizado se desenvolve de forma ativa, quando a mãe realiza o
controle da dieta da casa e
de forma passiva, através
da observação da criança quanto aos hábitos nutricionais da mãe ou
da família1,20. O
aconselhamento e orientação das mães no
preparo e manuseio dos alimentos poderia determinar a efetividade
de uma medida simples, como por exemplo orientação nutricional, no
controle de um sério problema como é a obesidade22. Assim, buscar os hábitos alimentares da família entre as mães de crianças obesas e definir o estado nutricional das mães dessas crianças ou adolescentes nos possibilitaria a identificação de alguns fatores de risco para o desenvolvimento da obesidade na criança ou no adolescente. OBJETIVO
Geral
-
Avaliar o estado nutricional das mães do ambulatório de obesidade
infantil da Disciplina de Nutrição e Metabolismo do Departamento de
Pediatria da UNIFESP – EPM no período de agosto 2001 à março de
2002 Específicos
- Avaliar o estado nutricional das crianças ou adolescentes do
Ambulatório de Obesidade do Departamento de Pediatria da UNIFESP –
EPM em relação ao estado nutricional de suas respectivas mães. -
Orientar as mães a respeito de conceitos nutricionais
relacionados à obesidade. -
Observar o efeito da orientação nutricional através da evolução
do índice de massa corporal (IMC) da criança e do controle ponderal
materno. CASUÍSTICA
Participaram do estudo todas as crianças ou
adolescentes e suas respectivas mães atendidas no Ambulatório de
Obesidade do Departamento de Pediatria da UNIFESP – EPM no período de
agosto de 2001 a maio de 2002. METODOLOGIA
Na primeira consulta do trabalho, foi realizada
avaliação do estado nutricional da criança ou adolescente e de
sua mãe pelo índice de massa corporal (IMC), que consiste na relação
entre o peso corporal em quilogramas dividido pela altura elevada ao
quadrado. O padrão de referência adotado será o Cole, T. et al.
(2000)3 para as crianças e adolescentes, que considera
sobrepeso entre o percentil 85th e 95th e
obesidade acima do percentil 95th. O padrão de referência
adotado para as mães será OMS (1995)25, apresentando o
seguinte critério: desnutrida com IMC abaixo de 18,5 kg/m2 ; eutrófica
com IMC entre 18,5 e 25 kg/m2 ; sobrepeso com IMC entre 25 e 30 kg/m2;
obesa com IMC acima de 30 kg/m2.
As mães receberam folheto explicativo com orientações básicas
de nutrição a respeito de sugestões práticas para o manuseio
nutricional da obesidade (Anexo 1).
No nos retornos ambulatoriais, as mães receberam reforço das
orientações dadas e foi realizado controle ponderal. A evolução do IMC das crianças ou adolescentes e
o controle ponderal materno foram utilizados para verificar a aderência
às informações nutricionais adquiridas. RESULTADOS Foram
estudadas 46 duplas mãe-filho, as quais foram atendidas no Ambulatório
de Obesidade da Disciplina de Nutrição e Metabolismo do Departamento
de Pediatria da UNIFESP-EPM.
As mães
adultas atendidas no protocolo de estudo podem ser divididas em grupos
etários de 19 a 30 anos de idade, o qual corresponde a 10,8% da
amostra; de 31 a 40 anos de idade, que corresponde a 34,7% da amostra e
um grupo de maiores de 41 anos de idade, que corresponde a 54,5%. A média
de idade materna foi de 41,45 anos de idade com um desvio padrão de
10,41 anos.
Gráfico 1: Distribuição, segundo estado nutricional, das mães das crianças atendidas no Ambulatório de Obesidade da Disciplina de Nutrição e Metabolismo do Departamento de Pediatria da Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina . As crianças obesas atendidas, classificadas de acordo com critério de Cole (2000)3, distribuíram-se segundo faixa etária: um lactente (2,1%); 5 pré-escolares (10,8%); 18 escolares (39,1%) e 22 adolescentes (48%), sendo que a idade média das crianças foi de 10,23 anos com desvio padrão de 2,77 anos. Apenas 16 duplas mãe-filho foram acompanhadas em estudo longitudinal durante 10 meses, sendo realizado educação nutricional e observações periódicas a cada 2,5 meses, avaliando-se o estado nutricional da criança e da mãe. No primeiro
retorno, de um total de 20 duplas mãe-filho, 30% das mães e 40% das
crianças diminuíram os valores de IMC, enquanto que 60% das mães e
50% das crianças aumentaram valores de IMC, e 10% das mães e 10% das
crianças mantiveram inalterados valores de IMC. No segundo retorno, de um total de 18 duplas mãe-filho,
61,1% das mães e 38,8% das crianças diminuíram valores de
IMC,enquanto que 33,3% das mães e 44,4% das crianças aumentaram seus
valores de IMC, e conseguiram manter seu IMC estável
5,5% das mães e 16,6% das crianças. No terceiro retorno, de um total de 16
duplas mãe-filho, 43,7% das mães e 37,5% das crianças
conseguiram diminuir seus valores de IMC, enquanto que, 37,5% das mães
e 50% das crianças aumentaram seus valores de IMC, seguidos por 18,75%
das mães e 12,5% das crianças que conseguiram manter seus IMC’s em
um valor estável. A média e o
desvio padrão da diferença do IMC no início e término das observações
na dupla mãe-filho também foram analisados, e encontrou-se uma diferença
para as mães de 0,04 + 0,92 kg/m2, enquanto que para
as crianças, essa diferença foi de 0,41 + 1,48 kg/m2. DISCUSSÃO
É
importante ressaltar o caráter multifatorial da gênese da obesidade7,14,
pois essa característica exige dos serviços de saúde equipes
multiprofissionais5 para atender o paciente nos diversos
enfoques necessários, ou seja, delegando funções especializadas para
profissionais capacitados. A nutricionista deve cuidar da dieta do
paciente, enquanto que professor de educação física orientará,
dentro das possibilidades do paciente, uma atividade física que
complemente o tratamento. O psicólogo fará desde a análise dos
aspectos biopsicossociais do paciente até a identificação da dinâmica
familiar no intuito de dar apoio a equipe na forma como proceder com
determinado paciente para conseguir
resposta melhor ao tratamento e apoio ao paciente incentivando-o
a melhor aderência ao tratamento11. O tratamento
da obesidade tem taxa de sucesso entre 25-30%6,7, e depende
de uma mudança de comportamento do paciente. Essa mudança
comportamental é, em geral, lenta e progressiva, necessitando de um
tempo de adaptação para o paciente conseguir modificar o hábito
adquirido ao longo de seu desenvolvimento e sedimentado pelos costumes
familiares20,21. Apesar da duração de 10 meses de estudo, este tempo é escasso para verificar mudanças efetivas em pacientes obesos, mas o fato desses pacientes ter diminuído seu ritmo de ganho de peso, observado através da estabilização do IMC, já é um bom resultado5, pois indica que as instruções fornecidas foram suficientes para sensibilizar o paciente de sua condição de risco para a saúde, evitando a progressão de complicações clínicas como a dislipidemia e a hipertensão arterial. O estudo nos
permitiu conhecer mais sobre o perfil das mães das crianças obesas, e
entender um pouco mais sobre essa gênese multifatorial da obesidade.
Vale ressaltar que 80% das mães das crianças atendidas no protocolo
eram sobrepesos ou obesas, o que nos remonta a questão genética, mas
também o estilo de vida e o hábito alimentar familiar como fatores
predisponentes para a obesidade. Além das
características nutricionais,
chama atenção o fato da média de idade das mães ter ficado
acima dos 40 anos, caracterizando faixa etária de mães
superprotetoras, que tratam o alimento com significado afetivo
não nutricional, utilizando a alimentação como símbolo de
cuidado e carinho16. Quanto às
crianças, observou-se 48% de adolescentes e 32% de escolares, faixa etária
susceptível à mídia como influenciadora nos costumes, inclusive
alimentares, na maioria das vezes dificultando o trabalho dos
profissionais da área da saúde. O hábito
alimentar é adquirido durante o período de transição alimentar da
criança, iniciando-se na introdução de alimentos complementares, após
o aleitamento materno. Na fase escolar, a criança torna-se autônoma
para decidir a sua alimentação, incorporando ou não o hábito
alimentar familiar. Deste modo, preconiza-se
no tratamento da obesidade, modificações do estilo de vida e do hábito
alimentar da criança e do
adolescente que já estão previamente estabelecidos, sendo necessário
período longo para sensibilização e mudanças comportamentais desses
pacientes22. Assim, a grande barreira a ser quebrada pela
criança e adolescente no intuito de buscar perfil nutricional mais saudável,
seja a dissociação dos hábitos alimentares de casa, atitude que ela
assume sozinha, apesar da não modificação dos hábitos familiares20,21.
CONCLUSÕES: A
maior parte das mães das crianças obesas apresenta faixa etária acima
dos 40 anos de idade e obesidade e sobrepeso. Apesar
da dificuldade do tratamento da obesidade, demonstra-se que intervenção
no sentido de sensibilizar a mãe da criança obesa reflete em manutenção
de índices antropométricos da dupla mãe-filho.
REFERÊNCIAS
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Physical status: the use and interpretation of anthropometry. Bull WHO
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1 12
DICAS PARA DAR A SUA FAMÍLIA UMA ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL : 1.
Procure se alimentar em horários fixos; 2.
Evite comer no intervalo entre as refeições; 3.
Evite margarina, manteiga, requeijão e maionese no pão ou em
lanches; 4.
Dê preferência às comidas grelhadas e tente comer menos as
fritas ( troque o bife à milanesa pelo bife na chapa); 5.
Use o mínimo de óleo no preparo dos alimentos; 6.
Elimine a gordura visível das carnes e a pele do frango antes de
prepará- los; 7.
Evite consumir torresmos, salsichas, lingüiças, salgadinhos de
pacote e salgados fritos ( coxinha, etc. ) 8.
Diminua a quantidade de comida no prato; 9.
Evite repetir o prato; 10.
Evite doces, principalmente se tiverem cremes ou chocolate; 11.
Coma à vontade verduras e legumes; 12.
Tente comer frutas 3 vezes ao dia;
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